Portugueses compram casas mais baratas e pedem mais dinheiro à banca

Baixos salários e alto financiamento face aos não residentes ajudam a explicar, revela relatório do idealista/créditohabitação.
Michael B/Unsplash

As famílias residentes em Portugal continuaram a comprar casas mais baratas e a contratar crédito habitação de menor valor no final de 2023, de forma a adaptar-se ao atual contexto marcado pelos elevados preços da habitação, juros e custo de vida. Já comparando com as transações imobiliárias protagonizadas pelos estrangeiros e emigrantes, verifica-se que as famílias que vivem no país estão a comprar casas por menores valores, mas têm pedido mais dinheiro emprestado à banca, revela o mais recente relatório trimestral do idealista/créditohabitação em Portugal. O que também salta à vista é que os empréstimos habitação a taxa mista são os mais contratados tanto por portugueses, como por não residentes.

Olhando para os créditos habitação em Portugal formalizados no quarto trimestre de 2023, verifica-se que 35,5% dos contratos destinaram-se à compra da primeira habitação por parte das famílias que vivem no país – uma finalidade ultrapassada pelas transferências de crédito (38% do total). E observou-se ainda que um em cada cinco empréstimos habitação foram contratados por não residentes (emigrantes e estrangeiros), mostram os dados do relatório elaborado pelo idealista/créditohabitação.

As famílias residentes em Portugal que avançaram com crédito habitação na reta final do ano passado, compraram a primeira casa pelo custo médio de 223.953 euros, um valor 14,1% inferior face há um ano e 13,2% menor do que o registado no trimestre anterior. Registou-se também que o valor médio da compra da casa pelos portugueses é 14% inferior ao preço de compra da habitação em Portugal por parte dos estrangeiros e emigrantes, que se fixou em 260.370 euros no final do ano. Isto mostra que os portugueses continuam a comprar casas mais baratas e compatíveis com os seus rendimentos familiares – uma tendência já verificada ao longo do ano. E ainda que resolvem avançar com a aquisição de casas mais acessíveis do que os não residentes.

Para avançar com a compra da primeira habitação (pelo valor de 223.953 euros), as famílias residentes em Portugal pediram, em média, 160.713 euros emprestados ao banco. Apesar de o valor do crédito habitação contratado pelos residentes ser cerca de 11% inferior face há um ano e ao trimestre anterior, a verdade é que é 1,5% superior face ao solicitado pelos estrangeiros e emigrantes (158.327 euros).

Estes dados do relatório revelam, portanto, que embora as famílias residentes em Portugal tendam a comprar casas mais baratas e a pedir menor financiamento, a verdade é que acabam por pedir mais dinheiro emprestado à banca do que os não residentes. Mas nem sempre foi assim: em 2022 e na primeira metade de 2023, os estrangeiros e emigrantes pediram maiores montantes médios no crédito habitação do que os portugueses, numa altura em que também optavam por comprar casas mais caras.

A diferença dos salários entre os dois também pode ajudar a explicar esta realidade: afinal, o rendimento médio dos portugueses que compraram a sua primeira habitação (3.835 euros) é duas vezes inferior ao dos estrangeiros e emigrantes que resolveram adquirir casa no nosso país no final do ano (8.473 euros). Por isso, quem vive no país tem menos possibilidade de poupar dinheiro para avançar com um maior valor de entrada no crédito habitação, optando por uma maior percentagem de financiamento bancário.

Crédito habitação para quem vive (ou não) em Portugal: quais as diferenças e semelhanças?

A principal semelhança entre os créditos habitação contratados pelos portugueses (para a compra da primeira casa) e dos não residentes está no tipo de taxa contratada. Como as taxas Euribor continuam elevadas – apesar de estarem a descer ligeiramente desde novembro em reação à manutenção dos juros do BCE -, ambos estão a preferir contratar empréstimos habitação a taxa mista, que pressupõe um período inicial de juros fixos, seguido a um período a taxa variável.

Ainda assim, observam-se diferenças nos montantes financiados pelos bancos. Há mais famílias residentes em Portugal a optar por contratar créditos habitação até 200 mil euros (79%), do que os agregados que residem no estrangeiro (67%), muito embora representem a maioria em ambos os casos. O que também salta à vista é que a maioria dos portugueses opta por contratar créditos habitação entre 100 mil e 200 mil euros (62,8%), enquanto no caso dos não residentes a escolha mais expressiva é pelos empréstimos até 100 mil euros (40,7%), revelam os dados.

Já no que diz respeito aos empréstimos bancários de maior valor (acima de 200 mil euros) salta à vista que são os estrangeiros e emigrantes que tendem a contratar mais – até porque têm maior poder de compra. Um em cada quatro não residentes pediu financiamento bancário entre 200 mil e 300 mil euros no final de 2023 – mais do que as famílias que vivem no país (20,9%). E 7,4% dos agregados que vivem no estrangeiro avançou com empréstimos superiores a 300 mil euros, dos quais 3,7% superaram mesmo os 500 mil euros, enquanto só 2,3% dos residentes em Portugal pediram créditos habitação acima de 300 mil euros.

Também há diferenças quanto às faixas de financiamento para aquisição de habitação em Portugal. Enquanto a maioria dos residentes opta pelas percentagens de financiamento mais elevadas (80-90%), a maior parte dos estrangeiros e emigrantes resolve optar por créditos habitação financiados entre 70-80% do menor valor entre a avaliação da casa e o preço do imóvel.

Há uma explicação simples para esta tendência: importa lembrar que o patamar de financiamento para não residentes em Portugal costuma situar-se entre os 70% e 80%, dependendo da instituição bancária. E para quem viva fora da União Europeia este valor máximo pode mesmo ser de até 70%. Além disso, os estrangeiros e emigrantes que contrataram empréstimos habitação possuem mais do dobro dos salários médios dos portugueses, tendo assim mais possibilidades de poupar e avançar com um maior valor de entrada no crédito habitação.

Assim, verifica-se que tanto as famílias residentes em Portugal como no estrangeiro estão a optar, sobretudo, por contratar créditos habitação taxa mista, pedindo financiamentos bancários inferiores a 200 mil euros – embora haja mais não residentes a optar por empréstimos mais elevados. E que ambos optam, sobretudo, por pedir a maior percentagem de financiamento possível (entre 80-90% para portugueses e 70-80% para não residentes), mesmo em tempos conturbados pelos elevados preços das casas e dos juros.

Por isso, as elevadas percentagens de financiamento pedidas pelas famílias que vivem em Portugal, mas sobretudo os seus baixos salários, podem ajudar a explicar o facto destes agregados terem pedido maiores valores médios de crédito habitação do que os não residentes no final de 2023, apesar de comprarem casas mais baratas.

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